13 de jun de 2016

Literatura, sofrimento e a vida em condomínio

Em 01/06/16, tive o privilégio de participar da mesa de Psicanálise e Literatura do evento “Ideias fora do lugar”, organizado pelo Instituto de Letras da UFRGS. O fechamento do evento contou com uma palestra do psicanalista Christian Dunker relacionada ao seu livro Mal-estar, sofrimento e sintoma (2015). Realizo abaixo uma resenha do que considero o eixo central da apresentação. Entre aspas estão trechos do manuscrito utilizado pelo próprio Dunker durante a apresentação.

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Em Mal-estar, sofrimento e sintoma, a noção de sofrimento é chave por caracterizar o que se articula em termos de narrativa que demanda um reconhecimento: “O sofrimento pede algo, ainda que seja o reconhecimento do Outro para sua própria existência. Por isso, quando alguém tem seu sofrimento reconhecido são evocadas identificações”. Aquele que tem seu sofrimento escutado, reconhecido, obtém uma posição (simbólica) de enunciação. Atento aqui para o caráter histórico do sofrimento. Se a noção de mal-estar em psicanálise faz referência a algo tão inarticulável quanto inerente e constante aos sujeitos de uma cultura, o sofrimento seria uma narrativa historicamente situada e endereçada. Eis o ponto a partir do qual Dunker se aproxima da literatura, afinal, o sofrimento pode se formular como uma ficção. Utilizando-se da fórmula lacaniana a verdade tem estrutura de ficção, o autor afirma que “o sofrimento nos faz perguntar pelo fragmento de verdade que está sendo articulado por sua ficção” e conclui que “o sofrimento tornou-se parâmetro para o que se pode chamar de experiência para a literatura contemporânea”. Podemos entender, em suma, que o sofrimento de uma época pode ser articulado na forma de uma ficção literária. Segundo o autor, diferentemente do percurso que se deu no cinema, a literatura brasileira não produziu obras capazes de realmente engendrar o período da ditadura militar, o que seria “uma espécie de desmembramento ou de fracasso da narrativa de sofrimento”. Enquanto que “pelas próprias características da linguagem fílmica, notadamente sua propensão para a ação”, o cinema produziu narrativas de sofrimento, a literatura e as artes plásticas teriam “se concentrado na exploração da resistência de nomeação que caracteriza o mal-estar”. Não houve, portanto, uma ficção literária que permitisse o reconhecimento e partilha desse sofrimento e, consequentemente, a pergunta pela sua verdade.

Do mesmo modo que a teoria psicanalítica prevê que o sintoma é o retorno metafórico do que foi recalcado – sistematização que Lacan adapta para o caso psicótico ao afirmar que o que é foracluído do simbólico retorna no real –, Dunker propõe interpretar a vida em forma de condomínio – modo especificamente brasileiro de laço social – como uma espécie de sintoma que expressa um sofrimento não articulado. “Se pensamos esta hipótese para o Brasil veremos que a neovanguarda dos anos 1960 foi brutalmente suspensa por meio de um acontecimento traumático: o golpe civil-militar de 1964. Portanto, temos aqui a exata circunstância na qual temos que pensar ao mesmo tempo o retorno sintomático no simbólico e a continuidade do luto suspenso, segundo a hipótese perspectivista” (referência ao perspectivismo ameríndio trabalhado pelo antropólogo Viveiros de Castro, o que o psicanalista propõe como alternativa ao tradicional totemismo freudiano).

No hiato entre o fracasso da elaboração ficcional da ditadura militar e a aparição do condomínio há a questão da violência enquanto nome (insuficiente) de um mal-estar. No contexto de uma sociedade do espetáculo debordiana, Dunker entende que, a partir da década de 80, o Brasil teria encontrado na violência um significante que o representa. “Com isso ela passa a correr o risco permanente de estetização, por meio da qual ela é transformada, portanto, em 'teleshow' da realidade, que pode ser consumido com extremo prazer, mostrando-se randômica, destituída de sentido e chegando à pura espetacularidade”. A propagação dos programas televisivos que oferecem uma experiência catártica, produzindo e legitimando através do espetáculo uma estética da violência (“como se os habitantes de periferias e favelas fossem naturalmente violentos”), surge como demanda do próprio telespectador, como uma experiência improdutiva de determinação. Isso porque essa espetacularização da violência apenas cristaliza e associa imagens a um mal-estar em vez de produzir narrativas que permitam sua metaforização. Sendo assim, explica Dunker: “Argumento que a violência faz sutura de nossa fantasia pós-ditatorial, porque ela agrupa diferentes formas e sofrimento sob um mesmo nome. É por isso que ao mesmo tempo a violência é de um lado um bloqueio ou suspensão das relações simbólicas de reconhecimento, dos semblantes imaginários da 'cosmética da fome', sem falar no núcleo real do antagonismo social. O mal-estar que é nomeado por 'a-violência' [neologismo do autor] acaba subsumindo e subordinando todas as outras formas de conflito: de classe, de gênero, de aspirações ideacionais, e todas as formas de violência: contra a mulher, contra a criança, contra o pobre, contra o imigrante. É assim, pela pregnância de um mesmo traço, que adquire a função de unir uma série e mantê-la sob uma mesma significação, que a super-visibilidade de a-violência mantém opaca outras formas de apresentação do conflito.”

O discurso sobre a violência criaria muros primeiramente imaginários, separando nós e eles, isto é, as vítimas e os agentes da violência, fomentando a projeção de toda violência no outro agressor e perigoso. Essa segregação “está baseada na suposição de existência de um grupo social que precisa ser reduzido ou eliminado para que a 'harmonia' se restabeleça”. Em um segundo momento, porém, outro tipo de retorno, a saber, a materialidade simbólica do muro, enfim, a organização da vida em forma de condomínio – que podemos entender como uma figura que engloba outros espaços “murados” e “seguros” como, por exemplo, shoppings e carros enquanto elementos que dominam de maneira crescente o espaço urbano brasileiro. Tratam-se, conclui Dunker, de “rituais de humilhação e inveja que ricos impõem aos mais pobres. Foi o que tentei tornar mais visível com a tese da vida em forma de condomínio. A invisibilidade do 'outro perigoso' gerida pelo muro de exclusão e de recusa de reconhecimento, baseada na retórica securitária da segurança, terminou por elevar o medo à condição de afeto central da política”.

2 comentários:

  1. O termo a-violência porta o alfa privativo. Estaria em relação à ideia de não exposição do conflito através da segregação naturalizada pelos muros?

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  2. Acho o Freudismo de relevante importância parar o mundo atual, haja vista que não só as teorias de Freud, mas Lacan e Jung também contribuiriam grandemente para o entendimento do que conhecemos hoje sobre o trabalho da mente humana.

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