1 de dez de 2011

Por que ler os efêmeros?

O formato "quarto de mil" é inspirado na proposta do Carlos Karnas e sugestão do José Luiz Caon. Sem contar o título e este breve prólogo, o texto ficará aquém de 250 palavras. O texto em si, isto é, seu conteúdo, é resultado das discussões com o Luciano Mattuella.

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O psicanalista que se interessa pelos movimentos culturais e suas incidências na clínica deve olhar diligentemente para  o contexto do qual participa. Não raro encontramos textos de psicanalistas cuja interpretação da contemporaneidade não passa de uma negativização da época em que Freud viveu e a partir da qual construiu uma importante – e completamente articulada à prática clínica – crítica da cultura. Essa negativização opera da seguinte maneira: aprisionados às ferramentas teóricas consagradas e sem perceber que elas participam de determinado contexto, não se busca renovadas alternativas de pensamento para articular novas questões clínicas com o contemporâneo; o que resulta é a compreensão do atual como negativo do passado. E aí está toda a nostalgia do psicanalista que lamenta que o que era antes agora não é mais, que considera o contemporâneo “preocupante”, ignorando torpemente que o “antes” está impregnado pelo nazismo, apartheid e repressão ao feminino.
O laço social está “enfraquecido” ou modificado? O Outro, enquanto lugar da palavra e da tradição, foi “foracluído” ou teve seus códigos sociais repressores suavizados? Podemos ainda aceitar que o custo da civilização é a repressão?
Se não há mais a valorização do “clássico” (e, veja bem, esse é apenas mais um valor de uma dada época), se o que se faz “hoje em dia” é “efêmero”, a possiblidade de realmente abordar a nossa cultura passa pelo interesse no efêmero e seu conteúdo.

Nossa época não é especialmente difícil à psicanálise, mas sim aos psicanalistas que vivem em outra época.

10 comentários:

  1. "Império do Efêmero" é um baita livro.

    Nostalgia é uma das formas da morte do desejo. E é uma das mais bem socialmente aceitas formas de gozo que existe. "Todo mundo queria ser criança de novo" - boa parte consegue; e nem percebe.

    Amanhã vou colocar aqui uma citação de Paul Ricoeur que vai te fazer tremer e vai re-significar TODOS teus alicerces teóricos. (Aham)

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  2. Eu pensei justamente no efêmero do Lipovetsky e no clássico do Calvino. By the way, não aconselho abandonar os clássicos, muito pelo contrário.

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  3. O livro tá aqui do lado, a citação vem hoje mesmo:

    "(...) c'est parce que la psychanalyse est de droit une interprétation de la culture qu'elle entre en conflit avec toute autre interprétation globale du phénomène humain. (p. 8 de "De L'Interpretation", de Ricoeur).

    Mais outra, do mesmo livro:

    "Une méditation sur l'oeuvre de Freud a le privilège d'en révéler le dessein le plus vaste ; celui-ci fut no seulement de rénover la psychiatrie, mais de réinterpréter la totalité des productions psychiques qui ressortissent à la culture, du rêve à la religion, en passant par l'art et la morale. C'est à ce titre que la psychanalyse appartient à la culture moderne ; c'est en interprétant la culture qu'elle la modifie ; c'est en lui donnant un instrument de réflexion qu'elle la marque durablement" (p. 14)

    Que te parece?

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  4. A gente não deve abandonar os clássicos: mas ressignificá-los.

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  5. Vamos começar por uma tradução livre, tornando a frase o mais próxima possível da maneira que compreendi:
    "por ser uma legítima interpretação da cultura,a psicanálise entra em conflito com qualquer interpretação global do fenômeno humano".
    Tu poderia dar um contexto com o qual ele justifica isso? Seria dizer que a psicanálise não permite UMA interpretação, isto é, global, única, da cultura? É no "global" a ênfase?

    A segunda, mesmo tipo de tradução:
    "Uma meditação sobre a obra de Freud tem o privilégio de dela revelar o mais vasto propósito: não apenas de renovar a psiquiatria, mas de reinterpretar a totalidade de produções psíquicas que se relançam à cultura - do sonho à religião, passando pela arte e a moral. É por isso que a psicanálise pertence à cultura moderna; é interpretando a cultura que a psicanálise a modifica; ao dar à cultura um instrumento de reflexão, a psicanálise a marca de maneira durável".

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  6. Quanto à primeira questão, aguardo tua resposta. A segunda me fez lembrar de uma série de termos que penso que a psicanálise tornou popular: neurótico!, recalcado!, histérica!, "tá me analisando?", inconsciente e etc (sim, os seguidos por exclamação são xingamentos). Outra questão importante, é a maneira como ela marca outra áreas como sociologia, antropologia e muitas outras. Sem Freud, o Foucault e o Lévi-Strauss, pra citar apenas dois, teriam escrito coisas diferentes, sem dúvida, afinal, sem Freud as coisas teriam sido diferentes!

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  7. Sobre a primeira questão:

    Na verdade o que me chamou a atenção nessa citação foi a clareza com que Ricoeur (que não é e nem aspira ser psicanalista, diga-se de passagem) expõe isso: a psicanálise é uma INTERPRETAÇÃO da Cultura. Aliás, o conceito de interpretação é poderosíssimo em Ricoeur - e fica BEM distante daquelas relações signo/referente que estamos acostumados em algumas linhas de trabalho clínico.

    O "global" aí me interessa na medida em que parece que Ricoeur propõe que a psicanálise tem por função na interpretar somente a Cultura, mas como a Cultura ganha... validade, consistência? (não me surge a palavra certa). Acho que entra naquela questão: não adianta fazer "psicanálise" de um filme, isso não leva a nada (só à venda de livros e manipulação de opinião) - o importante é saber porque, em DETERMINADA época, DETERMINADA cultura produziu um DETERMINADO produto cultural específica. Em suma: qual a fantasia que encontra aí uma janela sublimatória possível? A qual mal-estar se relaciona?

    Acho que valeria estudarmos esse livro juntos.

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  8. Quanto à segunda questão:

    Aí o que me parece ser essencial é a última frase: a psicanálise marca a cultura MODIFICANDO-A. Ou seja, não se trata de um fazer contemplativo, mas de uma prática ativa que, ao permitir que a dimensão da crítica se instaure (separação após alienação), muda a própria malha de referências e de ideais de uma Cultura.

    Isso é importante, eu acho. E é justamente o que Freud fala na abertura do "Psicanálise das massas", não te parece? O "indivíduo" (atenção pras aspas) e o "social" (idem) não se diferenciam justamente porque o que está em jogo são as fantasias de uma determinada época e como cada um se a-sujeita a estas fantasias.

    Que tu acha?

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  9. Começando de trás pra frente: sim, ele diz que a psicanálise é ao mesmo tempo a clínico do individual e do social (ou algo assim que uma rápida olhada no google, digo, na obra do Freud, confirme).
    Sim, claro, a psicanálise participa da cultura, de dentro dela; isso exclui completamente uma suposta objetividade científica, não?
    Sobre o GLOBAL, o Ricoeur diz que a psicanálise entra EM CONFLITO com qualquer interpretação global da cultura e por isso pensei que ele sugere que a interpretação da psicanálise não é completa, única ou universal. Abç!

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  10. Psicanálise e ciência. Estatuto da ciência. Lugar da psicanálise na Cultura...

    Muita coisa aí... vou escrever um novo post no blog como resposta ao teu comentário. Depois posto aqui o link, certo?

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