13 de jun de 2016

Literatura, sofrimento e a vida em condomínio

Em 01/06/16, tive o privilégio de participar da mesa de Psicanálise e Literatura do evento “Ideias fora do lugar”, organizado pelo Instituto de Letras da UFRGS. O fechamento do evento contou com uma palestra do psicanalista Christian Dunker relacionada ao seu livro Mal-estar, sofrimento e sintoma (2015). Realizo abaixo uma resenha do que considero o eixo central da apresentação. Entre aspas estão trechos do manuscrito utilizado pelo próprio Dunker durante a apresentação.

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Em Mal-estar, sofrimento e sintoma, a noção de sofrimento é chave por caracterizar o que se articula em termos de narrativa que demanda um reconhecimento: “O sofrimento pede algo, ainda que seja o reconhecimento do Outro para sua própria existência. Por isso, quando alguém tem seu sofrimento reconhecido são evocadas identificações”. Aquele que tem seu sofrimento escutado, reconhecido, obtém uma posição (simbólica) de enunciação. Atento aqui para o caráter histórico do sofrimento. Se a noção de mal-estar em psicanálise faz referência a algo tão inarticulável quanto inerente e constante aos sujeitos de uma cultura, o sofrimento seria uma narrativa historicamente situada e endereçada. Eis o ponto a partir do qual Dunker se aproxima da literatura, afinal, o sofrimento pode se formular como uma ficção. Utilizando-se da fórmula lacaniana a verdade tem estrutura de ficção, o autor afirma que “o sofrimento nos faz perguntar pelo fragmento de verdade que está sendo articulado por sua ficção” e conclui que “o sofrimento tornou-se parâmetro para o que se pode chamar de experiência para a literatura contemporânea”. Podemos entender, em suma, que o sofrimento de uma época pode ser articulado na forma de uma ficção literária. Segundo o autor, diferentemente do percurso que se deu no cinema, a literatura brasileira não produziu obras capazes de realmente engendrar o período da ditadura militar, o que seria “uma espécie de desmembramento ou de fracasso da narrativa de sofrimento”. Enquanto que “pelas próprias características da linguagem fílmica, notadamente sua propensão para a ação”, o cinema produziu narrativas de sofrimento, a literatura e as artes plásticas teriam “se concentrado na exploração da resistência de nomeação que caracteriza o mal-estar”. Não houve, portanto, uma ficção literária que permitisse o reconhecimento e partilha desse sofrimento e, consequentemente, a pergunta pela sua verdade.

Do mesmo modo que a teoria psicanalítica prevê que o sintoma é o retorno metafórico do que foi recalcado – sistematização que Lacan adapta para o caso psicótico ao afirmar que o que é foracluído do simbólico retorna no real –, Dunker propõe interpretar a vida em forma de condomínio – modo especificamente brasileiro de laço social – como uma espécie de sintoma que expressa um sofrimento não articulado. “Se pensamos esta hipótese para o Brasil veremos que a neovanguarda dos anos 1960 foi brutalmente suspensa por meio de um acontecimento traumático: o golpe civil-militar de 1964. Portanto, temos aqui a exata circunstância na qual temos que pensar ao mesmo tempo o retorno sintomático no simbólico e a continuidade do luto suspenso, segundo a hipótese perspectivista” (referência ao perspectivismo ameríndio trabalhado pelo antropólogo Viveiros de Castro, o que o psicanalista propõe como alternativa ao tradicional totemismo freudiano).

No hiato entre o fracasso da elaboração ficcional da ditadura militar e a aparição do condomínio há a questão da violência enquanto nome (insuficiente) de um mal-estar. No contexto de uma sociedade do espetáculo debordiana, Dunker entende que, a partir da década de 80, o Brasil teria encontrado na violência um significante que o representa. “Com isso ela passa a correr o risco permanente de estetização, por meio da qual ela é transformada, portanto, em 'teleshow' da realidade, que pode ser consumido com extremo prazer, mostrando-se randômica, destituída de sentido e chegando à pura espetacularidade”. A propagação dos programas televisivos que oferecem uma experiência catártica, produzindo e legitimando através do espetáculo uma estética da violência (“como se os habitantes de periferias e favelas fossem naturalmente violentos”), surge como demanda do próprio telespectador, como uma experiência improdutiva de determinação. Isso porque essa espetacularização da violência apenas cristaliza e associa imagens a um mal-estar em vez de produzir narrativas que permitam sua metaforização. Sendo assim, explica Dunker: “Argumento que a violência faz sutura de nossa fantasia pós-ditatorial, porque ela agrupa diferentes formas e sofrimento sob um mesmo nome. É por isso que ao mesmo tempo a violência é de um lado um bloqueio ou suspensão das relações simbólicas de reconhecimento, dos semblantes imaginários da 'cosmética da fome', sem falar no núcleo real do antagonismo social. O mal-estar que é nomeado por 'a-violência' [neologismo do autor] acaba subsumindo e subordinando todas as outras formas de conflito: de classe, de gênero, de aspirações ideacionais, e todas as formas de violência: contra a mulher, contra a criança, contra o pobre, contra o imigrante. É assim, pela pregnância de um mesmo traço, que adquire a função de unir uma série e mantê-la sob uma mesma significação, que a super-visibilidade de a-violência mantém opaca outras formas de apresentação do conflito.”

O discurso sobre a violência criaria muros primeiramente imaginários, separando nós e eles, isto é, as vítimas e os agentes da violência, fomentando a projeção de toda violência no outro agressor e perigoso. Essa segregação “está baseada na suposição de existência de um grupo social que precisa ser reduzido ou eliminado para que a 'harmonia' se restabeleça”. Em um segundo momento, porém, outro tipo de retorno, a saber, a materialidade simbólica do muro, enfim, a organização da vida em forma de condomínio – que podemos entender como uma figura que engloba outros espaços “murados” e “seguros” como, por exemplo, shoppings e carros enquanto elementos que dominam de maneira crescente o espaço urbano brasileiro. Tratam-se, conclui Dunker, de “rituais de humilhação e inveja que ricos impõem aos mais pobres. Foi o que tentei tornar mais visível com a tese da vida em forma de condomínio. A invisibilidade do 'outro perigoso' gerida pelo muro de exclusão e de recusa de reconhecimento, baseada na retórica securitária da segurança, terminou por elevar o medo à condição de afeto central da política”.

14 de jul de 2015

Resenha crítica de "Mal-estar, sofrimento e sintoma", de Christian Dunker



                Em Mal-estar, sofrimento e sintoma (Boitempo, 2015), obra lançada em meio a uma polêmica pública disparada pela noção crítica de “lógica do condomínio”, Christian Dunker consegue reunir algumas questões cruciais à psicanálise brasileira contemporânea, discuti-las com profundidade e ainda propõe de novas soluções teóricas. Além do condomínio e seu gestor ou síndico, que se trata de um ensaio de compreensão contemporânea do social especificamente brasileiro, o psicanalista apresenta as noções de diagnóstica e sofrimento. Juntamente com novidades teóricas de outros autores (pelo menos no que diz respeito à sua presença na discussão psicanalítica), como formas de vida e experiências (im)produtivas de (in)determinação, Dunker não somente demonstra a necessidade de se pensar criticamente a racionalidade diagnóstica da psicanálise a partir de novos termos, mas também pratica o que propõe.

É dentro da proposta de que a teorização sobre um objeto pode modificá-lo que Dunker realiza uma espécie de genealogia da racionalidade diagnóstica que fundamenta a psicopatologia contemporânea, ao mesmo tempo em que identifica as diferentes estratégias diagnósticas que lhe são idiossincráticas. O diagnóstico é uma nomeação que gera efeitos no indivíduo e no social, restabelecendo os critérios normativos através da história. O autor inclusive reúne alguns curiosos e valiosos exemplos históricos de diagnósticos cuja dissipação social ecoou de maneira a multiplicar os sintomas a elas relacionados. A conclusão é a de que não é possível separar os sofrimentos e sintomas típicos de um contexto histórico-cultural da racionalidade diagnóstica onde eles se apresentam.

Segundo o próprio Dunker (p. 265): “Determinada forma de sofrimento alcança legitimidade e reconhecimento social, mobilizando os dispositivos de cura, tratamento ou terapia, sejam eles de natureza formal, sejam de natureza informal. Contudo, isso é insuficiente para nomear todas as formas e todas as intensidades de mal-estar, que continuam a insistir como demandas locais desviantes e insuficientemente reconhecidas. Por outro lado, a massificação de uma modalidade de sofrimento equivale à sua gradual normalização, o que explicaria a mutação narrativa para outro grupo de sintomas. Se essa hipótese é verdadeira, as novas formas de patologia são indissociáveis de novas modalidades de nomeação, e o movimento da psicopatologia funciona, ao modo das neuroses, esquecendo seus próprios rastros históricos. (...) Segundo essa hipótese, a mudança de nome muda a ‘coisa’”.

A articulação entre mal-estar, sofrimento e sintoma pode ser lida como o eixo central do livro. Por entender que na literatura psicanalítica há uma imediatez indevida entre mal-estar e sintoma, isto é, os novos sintomas que desafiam a clínica psicanalítica são correlatos diretos de um também novo mal-estar, o autor interpõe entre esses termos a noção de sofrimento, onde “o sofrimento psíquico é a expressão de um social ainda não reconhecido, ou não mais reconhecido, que continua a insistir como carta não entregue, promessa não cumprida” (p. 11). Em forma de romance (familiar do neurótico), de teorias (sexuais infantis), de mito (individual do neurótico, etc, “o sofrimento determina-se pela narrativa e pelo discurso nos quais se inclui ou dos quais se exclui” (p. 25). Faltaria à literatura psicanalítica contemporânea, portanto, um trabalho sobre as narrativas possíveis onde o mal-estar pudesse se expressar e encontrar reconhecimento social enquanto sofrimento. Narrativas locais, sublinhe-se, não universais. Dunker então faz uma extensa revisão das narrativas presentes no cinema brasileiro e apresenta a já citada lógica do condomínio.
Mas, lembremos, a racionalidade diagnóstica de uma época participa das suas patologias do social. Sendo assim, Dunker afirma (p. 33): “O encurtamento ou a condensação das formas de linguagem que a pós-modernidade reserva ao sofrimento parece ter redundado também em redução da extensão e em mutação na qualidade da queixa, sob a qual opera o diagnóstico. Temos agora novas patologias baseadas no déficit narrativo, na incapacidade de contar a história de um sofrimento, na redução do mal-estar à dor sensorial”. Não basta pensar como a psicanálise, a psicologia, a psiquiatria, etc, podem “curar” as patologias de um social. É preciso também pensar de que forma fazem sua racionalidade diagnóstica participar dessas patologias, assim como através de quais narrativas contemporâneas podem promover o reconhecimento do sofrimento em questão. Afirma o autor: “O ponto-chave aqui é o fato de o sofrimento ser uma experiência compartilhada e coletiva. Os atos de reconhecimento ou de desconhecimento transformam a experiência real do sofrimento (p. 37)”; “Quando o mal-estar recebe um nome e quando articulo em narrativa uma forma de sofrimento, torno-me imediatamente parte de uma comunidade invisível, daqueles que já passaram por isso antes de mim e dos que irão passar por isso depois de mim (...)” (p. 40).

A diferença entre totemismo e animismo (mais especificamente o perspectivismo animista ameríndio conforme trabalhado pelo antropólogo brasileiro Viveiros de Castro) é crucial. O totemismo reuniria tanto a base antropológica utilizada por Freud em Totem e tabu quanto os diagnósticos neurótico-centrados, onde a função paterna é considerada universalizante. A operação “normal”, neurótica, recalcaria essa função, enquanto as demais se apresentariam como um déficit desta (forcluído na psicose e renegado ou desmentido na perversão). O argumento do autor é de que, em psicanálise, reduzir os diagnósticos a apenas inscrição ou déficits da função paterna contribui para o não reconhecimento de experiências produtivas de indeterminação e, logo, de sofrimentos não organizados dentro da lógica totêmica:
“Entendemos, com isso, por que a metadiagnóstica centrada na ideia de excesso de experiências improdutivas de determinação interpreta as experiências indeterminativas como improdutividade, déficit ou carência de determinação. Isso ocorre porque sempre pensamos o diagnóstico a partir da premissa do mononaturalismo totemista, ou seu equivalente freudiano, a premissa universal do falo, que só consegue perceber um mesmo mundo, idêntico a si, no qual “nós” somos o elemento variável” (p. 302).
Dito de outra maneira, “o totemismo representa uma das articulações do sintoma que nos deixou cegos para a possibilidade de que existam sintomas de estrutura animista” (p. 368); “O déficit paterno é na verdade um déficit do totemismo como esquema explicativo” (p. 404). É preciso, portanto, buscar as soluções para reconhecimento das novas formas de sofrer em novas narrativas e novas soluções teóricas, não apenas através da “hermenêutica do texto de Freud e Lacan” (p. 405). E eis que ganha sentido a aposta do psicanalista no trabalho do antropólogo Viveiros de Castro sobre o perspectivismo animista ameríndio como alternativa (não completamente substitutiva) ao totemismo:
“É preciso uma reformulação da racionalidade diagnóstica que cerca a leitura do mal-estar brasileiro para além do pai como articulador central dos dispositivos de autoridade, para além da família como lugar de asfixia do desejo, para além da oposição simples entre ideais subjetivos e condições objetivas. É preciso reconhecer que agora sofremos de outra maneira” (p. 86).
                O entendimento de que a psicanálise se atém ao mononaturalismo (existe uma natureza e nossas teorias são tentativas renovadas de construir sistemas explicativos desta), tal qual a ciência, faz Dunker buscar soluções multinaturalistas (a natureza não é homogênea e singular).
“(...) é preciso defender uma multiplicidade de naturezas, todas elas dependentes de uma única perspectiva, que é a do sujeito produtor de versões sobre a natureza a partir das perspectivas nas quais se encontra. Trata-se de diversas naturezas, no sentido material, causal e ontológico. (...) Ou seja, não se trata das variedades simbólicas da natureza, que o totemismo nos ajuda a organizar, mas da naturalidade real da variação” (p. 354).
                Trata-se de uma obra que busca fundar um novo momento na psicanálise brasileira, aliás, uma psicanálise verdadeiramente brasileira, onde as variedades dos sofrimentos nacionais devem ser compreendidas a partir das suas particularidades, e não através de adaptações de racionalidades diagnósticas de origem europeia que se pretendem universais.

26 de mai de 2015

Lacan e a ciência no Seminário 20, "Mais ainda"



Em Encore, Lacan esclarece a relação de sua psicanálise com duas disciplinas, a saber, linguística e matemática. A referência a ambas é presente em toda a obra lacaniana, mas ficará claro que a teoria psicanalítica não pode ser reduzida às práticas dessas disciplinas – ela as excede e busca seus próprios caminhos. Talvez as críticas a Lacan que demonstram a incompatibilidade entre as práticas próprias a esses campos e a maneira como o psicanalista as utiliza, publicadas sob a forma de acusações de impostura intelectual, falhem em considerar justamente isso: o uso que Lacan faz da linguística, matemática, etc, não busca empregar seus métodos de maneira fiel, isto é, tais quais praticados dentro desses campos. A psicanálise lacaniana, muito embora absorva amplamente saberes e métodos dessas disciplinas, inclusive a ponto de não poder deles prescindir, não recorrerá a nenhuma epistemologia já estabelecida para ter sua autenticidade reconhecida. O que Paul-Laurent Assoun afirma sobre o freudismo, em Indrodução à epistemologia freudiana, valerá também para o lacanismo: “A psicanálise não tem necessidade de epistemologia; ela a possui; e é a isso que se chama de freudismo: basta objetivá-lo novamente” (p. 19). Assoun não poderia tê-lo resumido melhor. Ao reunir e discutir com notável profundidade as epistemologias que influenciaram Freud de maneira determinante, o autor encontra o limite desta determinação: há algo chamado freudismo, uma identidade epistemológica não redutível aos domínios que lhe são, no entanto, imprescindíveis. Afirmo que o mesmo vale para Lacan, inclusive no que diz respeito ao seu retorno a Freud: Lacan não abraça todo freudismo, não pode ser reduzido a ele, tampouco a Koyré, Lévi-Strauss, Jakobson, Kojève, Bourbaki, Freud, etc.
                Primeiro o anúncio de ruptura com Jakobson e a linguística (p. 25): “(...) será preciso, para deixar a Jakobson seu domínio reservado, forjar alguma outra palavra. Chamarei a isto de linguisteria. (...) Meu dizer que o inconsciente é estruturado como uma linguagem não é do campo da linguística”. Logo após (p. 42), o entendimento de que a linguística pertence ao discurso científico: “A linguística, no campo em que se produz a fala, não é algo espontâneo. Um discurso a sustem, que é o discurso científico”.
                Mais adiante, sobre a diferenciação em relação à matemática e a todo discurso científico (p. 159): “O truque analítico não será matemático. É mesmo por isso que o discurso da análise se distingue do discurso científico”.
                Primeiras conclusões: Lacan identifica tanto a matemática quanto a linguística ao discurso científico. Ao distinguir a psicanálise de ambas, também a distingue da ciência. Curiosamente, porém, a referência a esses campos não se extingue com essa distinção. Muito pelo contrário, e inclusive no próprio Encore, Lacan vai utilizá-los amplamente, conforme demonstram as citações seguintes.

Sobre o uso da letra e da escrita conforme a matemática:

-  p. 61:  “Se bem que nada pareça melhor constituir o horizonte do discurso analítico do que esse emprego que se faz da letra em matemática”.

- p. 66: “É no jogo mesmo da escrita matemática que temos de encontrar o ponto de orientação para o qual nos dirigir para, dessa prática, desse liame social novo que emerge e singularmente se estende, o discurso analítico, tirar o que se pode tirar quanto à função da linguagem (...)”.
               
                Sobre a formalização matemática, a via de acesso ao real:

- p. 125: “O real só poderia se inscrever por um impasse da formalização. Aí é que eu acreditei poder desenhar seu modelo a partir da formalização matemática (...)”.

- p. 177: “A formalização não é outra coisa senão a substituição, a um número qualquer de uns, disso que se chama uma letra. (...) qualquer que seja o número de uns que vocês coloquem sob cada uma dessas letras, vocês estão submetidos a um certo número de leis, leis de grupo, adição, multiplicação, etc”.

- p. 178: “Só a matematização atinge um real – e é nisto que ela é compatível com nosso discurso, o discurso analítico (...)”.
               
                Não haveria nada senão uma grande contradição se Lacan tão somente afirmasse a distinção entre sua psicanálise e esses campos e ao mesmo tempo fizesse uso de seus saberes e métodos. Com efeito, Lacan propõe novas noções a partir da apropriação pela psicanálise da matemática e da linguística. A linguisteria, citada acima, ao mesmo tempo aproximação e ruptura, é um exemplo. Uma outra será a mais importante delas e se dará a partir do reconhecimento de uma espécie de intersecção entre matemática e linguística que lhes é, paradoxalmente, exterior. Ela será própria à psicanálise e formará um domínio estranho tanto à linguística quanto à matemática, aliás, a tudo que se compreende como discurso científico. Trata-se da topologia estrutural, o retorno de Lacan sobre a estrutura da linguística a partir da letra e da topologia em matemática (link para um artigo meu sobre o tema aqui). Lacan assim pretende demonstrar a “estrita equivalência entre topologia e estrutura” (p. 17), afirmando que “o significante (...) deve ser estruturado em termos topológicos” (p. 29). O significante, pura diferença, configura um espaço não-euclidiano, topológico e, portanto, distinto de qualquer ideia conhecida de substância. A topologia estrutural, pelo menos em Encore (sabemos que Lacan não necessariamente solidifica um conceito antes de se experimentar nos próximos), servirá para articular o sujeito a partir de uma nova substância, chamada por Lacan de substância gozante e que se opõe às substâncias pensante e extensa de Descartes.
                Se o inconsciente é estruturado como uma linguagem, e se esse dito não é do campo da linguística mas da linguesteria, será preciso reconstruir o sentido do termo estrutura. Lacan busca formalizar o que chama de “inércia da linguagem” a partir do uso da letra, e é a isso que chamará de estrutura:  (...) desse termo estrutura [também chamado de cadeia (p. 152)], os outros fazem dele o que querem, mas eu, o que faço notar é isto – a dita linguagem comporta uma inércia considerável, o que se vê ao se comparar seu funcionamento com os signos que chamamos de matemáticos, matemas, unicamente pelo fato de eles se transmitirem integralmente”. A estrutura, ou cadeia, será a inércia da linguagem, aquilo que retorna ao mesmo lugar e do qual as letras matemáticas podem apreender algo. Se o significante serve para a articulação da fala numa topologia, a letra será a maneira de escrever matematicamente, ou simplesmente matematizar, algo do real. As fórmulas da sexuação são o exemplo principal de formalização matemática em Encore. O real é demonstrado pela impossibilidade de estabelecer uma relação (rapport) ou harmonia sexual entre o homem e a mulher representados em suas respectivas posições na linguagem a partir de letras da álgebra lacaniana.
“Matematizar o real”, aliás, caracteriza a ciência moderna tal qual concebida por Koyré e absorvida por Lacan. O psicanalista não apenas aceita essa concepção de ciência como, de certa forma, a pratica. Novamente devemos reconhecer uma possível contradição na medida em que Lacan exclui explicitamente a psicanálise do campo da ciência ao mesmo tempo em que toma para si seu gesto de matematização do real. As citações acima já contêm as afirmações que diferenciam a psicanálise do discurso científico. Por outro lado, são numerosas as passagens  de sua obra onde Lacan coloca a psicanálise como oriunda da ciência, isto é, sua possibilidade atrelada ao aparecimento do discurso científico. Quanto a Koyré, em Encore (p. 110 na versão brasileira, mas traduzo da edição francesa de gaogoa.fr, pois a versão oficial brasileira inverte completamente o sentido de uma das frases): “o discurso analítico pode fazer semblante de alguma coisa que seria ciência. Pois, enfim, desse seria ciência vocês estão muito pouco conscientes, embora certamente tenham algumas referências. Vocês sabem, eu as coloquei aí porque acreditava que era um bom momento para fazer vocês repararem na história. Vocês sabem que houve um momento onde pudemos, não sem fundamento, nos premiar com essa segurança de que o discurso científico havia sido fundado. O ponto de virada galileano, parece-me que insisti suficientemente aí para supor que pelo menos alguns de vocês tenham ido às fontes, lá onde isso se nota: a obra de Alexandre Koyré”. Koyré entende que o discurso científico se inaugura pela representação simbólica do real, sua matematização. Mas a qual real o filósofo da ciência se refere? O real natural, o da física. Trata-se da substituição dos objetos do mundo por símbolos, letras, que permitem investigar o real de maneira ao mesmo tempo matemática e empírica, ainda que na ausência dos objetos. Lacan também utiliza a letra para matematizar o real, mas qual? “(...) um real que nada tem a ver com o que o conhecimento tradicional suportou e que não é o que ele crê realidade, mas sim fantasia. O real, eu diria, é o mistério do corpo falante, é o mistério do inconsciente” (p. 178). A matematização do real é uma apropriação epistemológica realizada por Lacan diretamente da ciência moderna tal qual apresentada por Koyré. O real, porém, “nada tem a ver”. Em Lacan o real será um núcleo duro que resiste à simbolização, um impossível que a letra toca e circunscreve sem apreender. A psicanálise pode fazer uso de métodos pertencentes ao discurso científico a seu modo, ou seja, sem reduzir-se a suas epistemologias, para investigar e delimitar seus próprios objetos – que, por sua vez, são estranhos à ciência. Para Lacan, o corte maior (lógico, não cronológico) descrito por Koyré como o aparecimento da ciência moderna – aliás, Milner bem o coloca, só há ciência moderna –, redefine a noção de conhecimento. No mundo moderno, não há conhecimento que não seja científico. Lacan afirma: “Mas o que é preciso ver é a que ponto isso é um passo, um passo verdadeiramente subversivo, do ponto de vista do que se intitulou conhecimento (...)”. Isto significa dizer que não há maneiras não-científicas de conhecer, que o que os discursos pré-científicos produziram não foi conhecimento sobre o real: “(...) nada houve senão fantasia quanto ao conhecimento, até o advento da ciência mais moderna” (p. 172). É uma afirmação absolutamente discutível (talvez mesmo Koyré dela discordasse!) do ponto de vista histórico. Trabalhos como o excelente As descobertas perdidas, de Dick Teresi, demonstram métodos e conhecimentos propriamente científicos produzidos em épocas e civilizações amplamente menosprezados por historiadores da ciência. De qualquer maneira, o que serve para Lacan é reconhecer um corte lógico na maneira de conhecer que também inaugura um novo laço social: “(...) isto que eu chamo de discurso científico, na medida em que um discurso é o que determina uma forma completamente renovada de laço social”. Não discutiremos aqui esse novo laço social, porém. É no mundo moderno, onde existe o discurso científico e seu conhecimento, que também pode existir algo sensível a um saber que a ciência não reconhece, a saber, a psicanálise. O filósofo Slavoj Zizek também comenta a relação de Lacan com a ciência moderna em Lacan between cultural studies and cognitivism, texto encontrado no livro Lacan and Science, organizado por Jason Glynos e Yannis Stavrakakis. Afirma o filósofo: “Lacan rompe com o historicismo dos Estudos Culturais: para ele, a ciência moderna resolutamente NÃO é uma das “narrativas” em princípio comparáveis a outros modos de “mapeamento cognitivo” – a ciência moderna toca o real de uma maneira totalmente ausente nos discursos pré-modernos” (p. 298).
                Embora algo complexa, a relação de Lacan com a ciência moderna e suas disciplinas, como a matemática e a linguística, é discernível, assim como o é a busca de uma topologia estrutural enquanto via epistemológica própria à psicanálise. O psicanalista, no entanto, não estabelecerá primeiramente o fundamento dessa via para só depois praticá-la. Ele restará inacabado. Devemos reconhecer, então, tanto a importância de juntar as referências que objetivam o que é próprio ao lacanismo – como Assoun faz com Freud –, quanto a necessidade de praticar a matematização do real da psicanálise. Apenas “tornar “claro” o que resta inacabado na obra de Lacan, isto é, estabelecer uma epistemologia que indique métodos os quais a psicanálise deve obedecer, talvez sirva apenas para sua estagnação. Os fundamentos devem ser ao mesmo tempo sólidos, para apontar caminhos para a produção de saberes, e maleáveis, para permitir que esses novos saberes mantenham os próprios fundamentos em discussão.